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Técnico vs. usuário: uma análise do processo comunicacional na Engenharia de Requisitos de Software
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O uso das Mídias Primária e Secundária no desenvolvimento de software
 
 
Autor Carlos Eduardo Marquioni, M.Sc., PMP
 

Resumo:

Pessoas que utilizam sistemas de computação podem imaginar que quem desenvolve este tipo de produto trabalha única e exclusivamente utilizando tecnologias de ponta, e que os processos de comunicação ‘mais próximos’ (entre humanos) seriam substituídos por contatos homem-computador. Contudo, o processo de desenvolvimento de software utiliza em larga escala, nos estágios anteriores à construção dos programas, as mídias conhecidas como mídia primária e secundária para obtenção e documentação de requisitos. Este trabalho apresenta uma visão geral de como ocorre e a importância do emprego dessas mídias para que sejam criados produtos de software, procurando deixar claro que o contato entre pessoas não pode ser abandonado.

  Palavras-chave: Mídia primária; mídia secundária; software; requisito.

 

Apesar de estabelecer um complexo sistema de comunicação, baseado no emprego de tecnologia para construção dos programas, o desenvolvimento de software pode ser entendido, em seus estágios iniciais, como uma atividade que executa poucos processos relacionados exclusivamente à informática. Em outras palavras, a tecnologia somente se faz necessária em um momento específico do desenvolvimento de software uma vez que, durante boa parte do trabalho, as atividades executadas são as mesmas que vêm sendo desempenhadas pela humanidade desde muito tempo.

Para compreender melhor este ponto de vista, é necessário entender como ocorre o procedimento de construção de um software que, em sua essência, é um processo relativamente simples: quando um usuário[3] deseja um software, ele procura um técnico (ou uma empresa fornecedora de software) e lhe conta uma ‘história’. Esta história corresponde à necessidade identificada por este usuário que motivou a solicitação do produto e que será ‘decodificada’ por um técnico em linguagem de software através de várias abstrações. Inicialmente, são criados textos; na seqüência os textos são transcritos na forma de diagramas e, finalmente, surgem os programas que são entregues ao solicitante. Apenas neste último estágio o uso de tecnologia da informação propriamente dita é fundamental: durante as etapas iniciais, o processo poderia ser, ironicamente, classificado como bastante ‘analógico’ conforme comentado a seguir.
 
No contato inicial entre um usuário e um técnico de software, quando este vai coletar junto àquele quais são suas necessidades, se estabelece um processo de comunicação em que o emissário é o usuário e o receptor é um representante do corpo técnico. O resultado deste contato, e a primeira decodificação dessas necessidades pelos técnicos em um ‘idioma’ de software origina o que é conhecido como requisito. Os requisitos
 
[...] são definidos durante os estágios iniciais do desenvolvimento de sistemas como uma especificação[4] de ‘o que’ deve ser construído. Eles são as descrições de como o sistema deve se comportar, informações do domínio da aplicação, regras da operação do sistema ou especificações de uma propriedade ou atributo de um sistema. Às vezes os requisitos são regras a seguir no processo de desenvolvimento de um sistema [tradução minha] (KOTONYA; SOMMERVILLE, 1998, p. 6).
 
Dentre as várias técnicas que poderiam ser utilizadas para proceder com essa captura de informações para descoberta dos requisitos, aquela que a comunidade de software aplica com maior freqüência é a realização de reuniões, em que um profissional técnico[5] realiza questionamentos ao solicitante do produto quanto ao seu ambiente de negócios e seus desejos em relação ao comportamento do software, em um formato de entrevista – daí a referência à mídia primária, afinal
 
[...] a primeira mídia, a rigor, é o corpo [...]. Quando duas pessoas se encontram existe uma intensa troca de informação, e portanto um intenso processo de comunicação por meios de inúmeros vínculos, inúmeros canais, inúmeras relações, conexões e linguagens (BAITELLO JR, 2005, p. 32).
 
Vale ressaltar também que esse método de identificação de requisitos presencial é bastante interessante, uma vez que a comunicação não se limita ao diálogo em si pois
 
[...] nosso corpo é de uma riqueza comunicativa incalculável. Um levantamento das linguagens faciais pode resultar em um dicionário muito maior que o Aurélio. A quantidade de músculos e de possibilidades de movimentos de cada músculo pode gerar uma ‘palavra’ de linguagem corporal – os vincos, a presença do tempo, a pele, os cabelos, os movimentos de cada músculo da face ou dos membros visíveis, há uma infinidade de frases possíveis nessa linguagem. Imaginem quando se juntam as ‘falas’ do rosto, dos ombros, do pescoço, da testa, dos cabelos ou sua ausência, dos braços, das mãos, dos dedos, da postura. Sem sombra de dúvida, é esta a mídia mais rica e mais complexa (BAITELLO JR, 2005, p. 32).
 
O resultado dessa elicitação é documentado de acordo com uma notação. Tratar-se-ia então da mídia secundária, uma vez que há uso de um suporte material. Como comenta Baitello Jr, o homem percebeu que
 
[...] deixando marcas em objetos, marcava sua presença, deixava a informação de sua presença em sua ausência [...] [e passa a usar] objetos fora do seu corpo para a sua comunicação. Com isso inventou a mídia secundária. Entre um corpo que emite um sinal e outro corpo que recebe o sinal, existe um objeto, um meio de campo, uma mídia. [...] Uma das primeiras formas de mídia secundária são as representações nas cavernas, as imagens e a sua transformação em pictografia e depois em escrita. Assim, todos os produtos da escrita sobre suportes materiais fixos ou transportáveis são, portanto, mídia secundária (BAITELLO JR, 2005, p. 33).
 
Continua o autor e afirma que a mídia secundária
 
[...] introduz um fator temporal novo, inventando o tempo lento que é o tempo da escrita, da decodificação e da decifração. O tempo da imagem registrada sobre materiais permanentes permite o tempo lento da contemplação. Assim também toda escrita exige decifração e tudo que não deciframos nos devora – isto vale tanto para a imagem quanto para a sua transformação que é a escrita (BAITELLO JR, 2005, p. 33).
 
Procurando ‘não serem devorados’, os profissionais de software vêm buscando, ao longo dos anos estabelecerem comunicação efetiva entre todos os participantes do processo. A notação utilizada para documentar a elicitação será modificada conforme o produto de software for desenvolvido (ou, para usar a expressão do meio técnico de software, avançar pelo seu ciclo de vida), em função do leitor a que se destinar o requisito, mas sempre com o suporte da mídia secundária. A primeira documentação elaborada a partir da elicitação é comumente formalizada em uma lista. Nesta lista, os requisitos identificados são descritos em linguagem natural, pois seu leitor será o próprio usuário solicitante, para que seja verificada a compreensão do que foi solicitado está correta. Neste momento o técnico de software passa a atuar como emissário, seu usuário é o receptor e o uso da linguagem natural tem vantagens e desvantagens, pois requisitos descritos dessa forma
 
[...] a princípio são compreendidos universalmente mas, na prática, o significado desses requisitos pode não ser sempre óbvio. [...] Requisitos em linguagem natural podem ser ambíguos, obscuros e geralmente confusos. Problemas comuns são que: 1. os requisitos são escritos usando cláusulas condicionais complexas (se A então se B então se C...) que se tornam confusas; 2. a terminologia é usada de forma inconsistente; 3. os redatores do requisito assumem que o leitor tem conhecimento específico do domínio do sistema e deixam informações essenciais fora do documento de requisitos [tradução minha] (KOTONYA; SOMMERVILLE, 1998, p. 19).
 
A verificação da compreensão pelo solicitante é fundamental, principalmente se considerado que o processo de comunicação estabelecido durante a entrevista é extremante complexo uma vez que na mídia primária
 
[...] as linguagens dos sinais e dos indícios se transformam em complexas linguagens de gestos, micro e macrogestos, elaboração e encadeamento de sons, em linguagem verbal, em complexos dialetos posturais e comportamentais, em símbolos e complexos simbólicos que, por sua vez, se ordenam em grandes complexos culturais. O corpo floresce de mil formas, se desdobra em mil linguagens simultâneas, diz uma sinfonia de mensagens em cada atitude. E constrói uma história que não é apenas a história de sua espécie – mas a engloba –, que não é apenas a história de seu tempo – mas a abrange –, que não é apenas a história de seu percurso individual da vida – mas também a retrata –. Uma história que não é apenas a memória de um passado, mas também o espelho de um futuro, com seus sonhos, projetos, utopias, planos, desejos e aspirações. É pois com este lastro complexo, de passado e futuro, de histórias e estórias, de limites e superações, que construímos nossa primeira capacidade comunicativa, nossa primeira e fundamental mídia” (BAITELLO JR, 2005, p. 62).
 
A segunda variação da representação dos requisitos é menos ambígua, mas nem por isso o processo de comunicação é menos complexo: esta representação se dá através de notações gráficas. Essas notações gráficas são utilizadas no processo de comunicação tanto com os usuários quanto com outros membros técnicos, pois ocorrem situações em que profissionais com perfis técnicos diferentes, que não tiveram contato direto com o usuário, precisam compreender os requisitos: um especialista em determinado segmento técnico necessita transferir conhecimento para um especialista em outro segmento técnico:
 
[...] a imagem é uma forma de escrita. Isto não se questiona, porque a escrita nasceu da simplificação dos registros iconográficos, dos desenhos e das pinturas. A relação entre as duas é indissolúvel porque ambas pertencem ao universo da visualidade. Não me refiro aqui às imagens interiores mas às imagens em sua materialidade de mídia secundária (BAITELLO JR, 2005, p. 35).
 
É importante entender porque é utilizada esta representação gráfica – chamada no meio técnico de modelagem do sistema. É Pressman quem comenta:
 
[...] assuma por um momento que lhe foi solicitado que especifique todos os requisitos para a construção de uma cozinha profissional. Você conhece as dimensões do local, a localização das portas e janelas e o espaço disponível de paredes. Você poderia especificar todos os armários e utensílios e então indicar onde eles vão ser colocados na cozinha. Isto seria uma especificação útil? A resposta é óbvia. Para uma especificação completa você precisaria de um modelo significativo da cozinha, isto é uma planta baixa ou um desenho tridimensional que mostre as posições desses armários e utensílios, assim como a inter-relação entre eles. A partir desse modelo, seria relativamente mais fácil avaliar a eficiência do fluxo de trabalho (um requisito de toda cozinha) e a aparência estética do local (um requisito pessoal, mas muito importante). Nós construímos modelos em sistemas pela mesma razão que criamos a planta baixa ou o desenho tridimensional da cozinha desse exemplo. É importante avaliar os componentes de um sistema em relação aos demais, para determinar como os requisitos se comportam neste cenário e avaliar a ‘estética’ do sistema [tradução minha] (PRESSMAN, 2000, p. 255).
 
Após a elaboração da ‘planta baixa’ do software, a última variação de representação pela qual passa o produto é um programa propriamente dito, redigido segundo as normas de uma linguagem de programação qualquer. De qualquer modo, até atingir este ponto, foi percorrido um longo caminho que envolveu compreensão, documentação e validação com uso intenso das mídias primária e secundária – apenas em um estágio avançado das atividades de desenvolvimento de software o uso dessas mídias é reduzido. Observe o destaque para reduzido, e não eliminado: na realidade, mesmo neste momento tipicamente ainda ocorrem – mesmo que de forma menos intensa – contatos entre os técnicos e os usuários para esclarecimento de eventuais dúvidas mas, certamente, haverá novo contato quando da entrega do produto concluído.
O que se observa durante o processo de desenvolvimento de software são níveis diferentes de abstração para uma mesma solicitação do usuário. A indústria de software, apesar de toda a tecnologia disponível, não conseguiria gerar seus produtos sem a utilização das mídias primária e secundária, para identificação e formalização dos requisitos do software, respectivamente.


[1] Este artigo foi adaptado a partir de trabalho produzido para a disciplina Comunicação e Corpo do Mestrado em Comunicação e Linguagens, da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), em maio de 2006.
[2] marquioni@marquioni.com.br – Mestre em Comunicação e Linguagens (UTP/2008) e Bacharel em Análise de Sistemas (PUC-Campinas/1994).
[3] Usuário é a designação atribuída pelos profissionais envolvidos no desenvolvimento de software para o indivíduo (ou grupo de indivíduos) que faz uso de um produto de software. Assim, qualquer pessoa que utilize um programa de computador (como por exemplo MS Windows, MS Word ou um programa desenvolvido para atender a uma solicitação específica pode ser chamada de usuário. O usuário é também às vezes chamado pela indústria de software de cliente.
[4] “no contexto de sistemas computacionais (e de software), o termo especificação pode significar coisas diferentes para diferentes pessoas. Uma especificação pode ser um documento escrito, um modelo gráfico, um modelo matemático formal, uma coleção de cenários de uso, um protótipo ou qualquer combinação destes. [...] A especificação do sistema é o produto final de trabalho gerado pelo engenheiro de sistemas ou de requisitos. Ela serve como a base para a engenharia de hardware, para a engenharia de software, para a engenharia de banco de dados e para a engenharia humana. Ela descreve as funções e o desempenho de um sistema computacional e as regras a seguir durante seu desenvolvimento” (PRESSMAN, 2000, p. 254).
[5] Não há, como ocorre na engenharia civil, uma denominação padrão quanto a como chamar o profissional de software envolvido na elicitação de requisitos. O técnico pode ser denominado neste estágio do trabalho como analista de negócios, analista de sistemas ou analista de requisitos – em uma analogia à engenharia civil, o trabalho executado e as preocupações seriam equivalentes àquelas do arquiteto.
 
 

 

Referências:

BAITELLO JR, Norval. A era da IconografiaSão Paulo: Hacker Editores, 2005..
KOTONYA, Gerald; SOMMERVILLE, Ian. Requirements Engineering – Processes and Techniques.New York: John Wiley & Sons Inc, 1998.
PRESSMAN, Roger. Software Engineering – A Practitioner’s Approach – European Adaptation. London: McGraw Hill International Limited, 2000.
 
 
 
 
 
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